Um pequeno caos sentido devidamente, acolhido, aceito, abraçado. Em meio a ele, o silêncio quebrado pelo barulho de um celular vibrando, bem ao meu lado, o aparelho cheio de lembranças usadas para aplacar a saudade, a saudade que só crescia, o aparelho tocava, vibrava como o meu próprio peito mostrando que estava vivo.
Um "alô" normal e a voz do outro lado, minha mãe, trazia notícias, novidades, tão bem vindas, gerando ansiedade, o que ela trazia de presente poderia ser antecipado pela vozes infantis que podiam ser ouvidas mais distantes. Os olhos brilharam, sem poder ser vistos, o brilhos molhado de lágrima começando a se formar nos cantos.
Minha mãe passa o telefone e a voz infantil, antes distante, agora monopolizava o telefone, com suas própria notícias, histórias e tudo que havia para ser dito. Demorou para perceber que a voz infantil já não era tanto, mas mudava, conforme seu dono crescia e através daquela voz, o menino nunca pareceu tanto um garoto mais do que um bebê, e a saudade inundou de novo, transbordou no peito, abriram-se todas as comportas e ela passou como um rio, como o próprio sangue, se espalhando na corrente, por cada pedaço do corpo, dando vida, dando a sim mesma, se fazendo sentir e, como água, traduziu-se em lágrimas que deslizaram pelos olhos, comportas da alma.
E eu só queria continuar ouvindo a vozinha que já sabia responder as minhas e fazer suas própria perguntas, eu estava namorando, estava, eu estava em Fortaleza estava, eu ia visitar minha cidade no fim de semana, iria, eu iria levar presente, iria, o que era, uma bola, queria jogar. Ele já sabia ler sozinho, leria pra mim, mesmo que só um pouquinho, tinha um irmanzinha longe, não tinha visto ainda, mas sabia o nome dela, gostaria quando visse. Estava acompanhado dos outros irmãos, queria andar de bicicleta, mas estava com os pneus secos, a bicicleta, brincava com o cachorro, iria ao meu aniversário no fim de semana, deixariam?
A conversa fluía, entre novidades, perguntas e respostas, brincadeiras, a vozinha crescendo, a imagem do garoto de formando na mente, tanta saudade, tantas promessas. Pequenos silêncios, timidez, tanto tempo entre o antes e agora, tanto tempo entre o telefonema e a última conversa, teria sido por telefone? Tantos laços, tantas lágrimas derramadas.
- Tá com saudade?
- Tô
E todos os laços, toda a saudade, todas as lágrimas, conversas, esperanças e promessas expressas em apenas duas palavras que poderiam falar, como falaram, mais que um livro, mais que um caminho, mais que um discurso e, depois delas, o ponto, um ponto. O ponto na sexta, o objetivo, a ida, o até lá, até o dia, até o abraço. Eu vou. Eu levo, Eu sou, Eu te amo.
Até sexta, meu anjinho Gabriel.
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