domingo, 16 de novembro de 2014

Outros escritos #3

Era domingo, calor, estresse, brigas e uma montanha de trabalhos e leituras a serem concluídas para a faculdade. Uma bagunça organizada na minha mente, no meu quarto, misturada a saudade de casa, a vontade de não estar só, vontade específica que só poderia ser preenchida por algumas pessoas que, porque não poderia ser diferente, estavam longe, fora do alcance dos dedos, das passagens de ônibus, abraços impossíveis, apenas vozes e imagens matando a vontade, a saudade, que não morria, dormia e sonhava, se construindo do próprio dono, alimentando sua própria força e uma hora voltava.
Um pequeno caos sentido devidamente, acolhido, aceito, abraçado. Em meio a ele, o silêncio quebrado pelo barulho de um celular vibrando, bem ao meu lado, o aparelho cheio de lembranças usadas para aplacar a saudade, a saudade que só crescia, o aparelho tocava, vibrava como o meu próprio peito mostrando que estava vivo. 
Um "alô" normal e a voz do outro lado, minha mãe, trazia notícias, novidades, tão bem vindas, gerando ansiedade, o que ela trazia de presente poderia ser antecipado pela vozes infantis que podiam ser ouvidas mais distantes. Os olhos brilharam, sem poder ser vistos, o brilhos molhado de lágrima começando a se formar nos cantos.
Minha mãe passa o telefone e a voz infantil, antes distante, agora monopolizava o telefone, com suas própria notícias, histórias e tudo que havia para ser dito. Demorou para perceber que a voz infantil já não era tanto, mas mudava, conforme seu dono crescia e através daquela voz, o menino nunca pareceu tanto um garoto mais do que um bebê, e a saudade inundou de novo, transbordou no peito, abriram-se todas as comportas e ela passou como um rio, como o próprio sangue, se espalhando na corrente, por cada pedaço do corpo, dando vida, dando a sim mesma, se fazendo sentir e, como água, traduziu-se em lágrimas que deslizaram pelos olhos, comportas da alma.
E eu só queria continuar ouvindo a vozinha que já sabia responder as minhas e fazer suas própria perguntas, eu estava namorando, estava, eu estava em Fortaleza estava, eu ia visitar minha cidade no fim de semana, iria, eu iria levar presente, iria, o que era, uma bola, queria jogar. Ele já sabia ler sozinho, leria pra mim, mesmo que só um pouquinho, tinha um irmanzinha longe, não tinha visto ainda, mas sabia o nome dela, gostaria quando visse. Estava acompanhado dos outros irmãos, queria andar de bicicleta, mas estava com os pneus secos, a bicicleta, brincava com o cachorro, iria ao meu aniversário no fim de semana, deixariam?
A conversa fluía, entre novidades, perguntas e respostas, brincadeiras, a vozinha crescendo, a imagem do garoto de formando na mente, tanta saudade, tantas promessas. Pequenos silêncios, timidez, tanto tempo entre o antes e agora, tanto tempo entre o telefonema e a última conversa, teria sido por telefone? Tantos laços, tantas lágrimas derramadas.
- Tá com saudade?
- Tô
E todos os laços, toda a saudade, todas as lágrimas, conversas, esperanças e promessas expressas em apenas duas palavras que poderiam falar, como falaram, mais que um livro, mais que um caminho, mais que um discurso e, depois delas, o ponto, um ponto. O ponto na sexta, o objetivo, a ida, o até lá, até o dia, até o abraço. Eu vou. Eu levo, Eu sou, Eu te amo.

Até sexta, meu anjinho Gabriel.

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