O filme "Boyhood" - algo que pode ser traduzido por "infância", ou o tempo relacionado à infância de um menino - dirigido por Richard Linklater e com atores como Ethan Hawke e Patricia Arquette (além do menino Ellar Coltrane) no elenco, chegou aos cinemas no fim de outubro desse ano, sendo que ele começou a ser filmado em 2002, aparentemente, em total sigilo entre a equipe e os atores.
O que acontece é que a cada ano, o elenco (acrescido ou diminuído) se reunia e gravava por alguns dias, por aquele ano, descobri há pouco tempo que foram ao todo 39 dias de gravação, ao longo de cerca de 12 anos, para nos trazer quase 3 horas de filme sobre a infância, a adolescência e o início da juventude de um menino comum, com problemas comuns, Mason Junior.
Tal como seus 12 anos de filmagens, o filme atravessa 12 anos da vida de Mason, dos seus 6 a seus 18 anos, passando pela sua infância e adolescência, capturando momentos como as espinhas, o divórcio dos pais, as implicâncias da irmã mais velha, a primeira namorada, a primeira cerveja, o primeiro cigarro, o novo casamento da mãe, a primeira briga, bullying, faculdade, entre tantos outros que podem ser encontrados em qualquer vida.
É exatamente aí que moram a beleza e a sensibilidade do filme, é bem mais do que a possibilidade de se identificar com algumas situações, como o divórcio dos pais, ou namoros e términos. É mais sobre mostrar como a vida "normal" pode ser extremamente fascinantes.
Enquanto víamos o filme, num sábado de madrugada, meu namorado e eu ficamos esperando pela tragédia do filme. Sim, algo que representasse uma reviravolta na história, uma morte ou algum trauma que realmente pudesse mexer com o rumo do filme e dos personagens. Não é que traumas e reviravoltas sejam inexistentes em vidas comuns, mas é tão maior que isso.O cinema comercial tem jogando em nossas mentes de que a vida só vale à pena pela aventura, pelo ato de visitar outros planetas, ou ter poderes especiais, ou escapar da morte em um acidente de carro ou uma queda de um prédio altíssimo, ou enfrentar algum animal que sofreu uma mutação genética, ou, em casos mais simples, se apaixonar por alguém que está morrendo.
Não me entendam mal, eu sou uma fã assumida de dramas, adoro "A culpa é das estrelas" e amo os clichês de Nicholas Sparks do fundo do meu coração, mas o tipo de aventura que estão nos vendendo é muito mais do que realmente precisamos e é isso que "Boyhood" mostra através de um ousado projeto de seu escritor e diretor.
Meio que me fez lembrar de quando assisti "De repente 30" e, apesar do filme ser algo impossível na realidade, há um trecho em que a personagem central - Jenna - fala sobre a importância da simplicidade na vida das pessoas. Não estou com isso querendo afirmar que "Boyhood" é apenas um filme simples, mas é exatamente o contrário, ele mostra como o simples, ou às vezes até aquilo que já consideramos banal - pode ser encantador, emocionante, fascinante seria a palavra que eu realmente escolheria.
No fim, assistir o filme se traduz em uma experiência maravilhosa, que altera seu modo de enxergar a vida "simples", como altera, faz perceber que a verdadeira aventura da vida é aquilo que acordamos e levantamos para enfrentar todo dia, é a volta de bicicleta, são as quedas.
No fim, Linklater mostrou que uma prova na escola é uma grande reviravolta, através da vida do jovem Mason, apresentou a infância como uma aventura, a adolescência como uma aventura e tudo depois disso como possibilidades ainda maiores.
"Me deixe ir
eu não quero ser o seu herói
eu não quero ser um grande homem
só quero lutar como todo mundo"
Foi essa a mensagem que o filme mais me passou enquanto eu torcia pelo atrapalhado, complexo Mason, filho de pais separados assim como eu, lidando com todos os problemas da adolescência assim como todos, fazendo relembrar como a dita simplicidade é um milagre, é uma história, o cotidiano, escrito todos os dias. Por me fazer perceber isso, lembrar isso e me encantar com isso, só posso agradecer ao diretor ousado que pôs essa ideia em prática e, claro, indicar "Boyhood" pra quem não tiver medo de chorar um pouco na frente de um videogame, uma bicicleta, um videogame, uma lata de cerveja, um toyota caindo aos pedaços.
Imagens:
http://www.boyhood.be/
https://fandangogroovers.files.wordpress.com/
http://i.guim.co.uk/
Nenhum comentário:
Postar um comentário