Minha roupa tem esse cheiro de comida
da única que eu aprendi a cozinhar
antes tudo que tinha era seu cheiro
agora faz tempo que não vou te visitar
Mas se é a roupa de dormir
um dia você já esteve aqui
até tão tarde assim
que cheiro foi esse que eu senti
Mas eu não lembro do teu cheiro
eu lembro mesmo os caminhos
tortuosos, cheios de espinhos
que a vida nos fez caminhar
Lembro as brigas de madrugada
tão cansados, tão vencidos
eu não estava contigo nem você comigo
mesmo estando ambos lá
E o lá é esse espaço
sem som, música, ou poesia
sem amor, só agonia
aonde podemos chegar
Sem beijos, abraços, carinhos
aqueles caminhos cheios de espinhos
só tem tudo que a gente joga fora
o limbo da atenção que a gente não dá
O inferno de tudo que a gente deixou passar
o paraíso das coisas debaixo do tapete
a bola de neve rolando sem parar
atropelados pela bola feita da gente
Sufocados por todas as palavras não ditas
afogados nas palavras ditas demais
perdidos entre o que se queria e o que se tinha
longos caminhos entre a desconfiança e o tanto faz
Se nos importamos, ou se não foi assim
se até ligamos, mas sem conseguir
eu sei que você ainda estava bem aqui
mas o teu cheiro já não sentia, eu percebi
Que era longe o amanhecer
sem saber onde você andava
ou se eu mesma estava
ou se queria estar
Se era doença ou fome o que eu tinha
o que me impedia mesmo de caminhar
se era fome, fazia aquela comida
e ficou o cheiro dela onde o seu não está
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