terça-feira, 18 de novembro de 2014

Cheiro

Minha roupa tem esse cheiro de comida
da única que eu aprendi a cozinhar
antes tudo que tinha era seu cheiro
agora faz tempo que não vou te visitar

Mas se é a roupa de dormir
um dia você já esteve aqui
até tão tarde assim
que cheiro foi esse que eu senti

Mas eu não lembro do teu cheiro
eu lembro mesmo os caminhos
tortuosos, cheios de espinhos
que a vida nos fez caminhar

Lembro as brigas de madrugada
tão cansados, tão vencidos
eu não estava contigo nem você comigo
mesmo estando ambos lá

E o lá é esse espaço
sem som, música, ou poesia
sem amor, só agonia
aonde podemos chegar

Sem beijos, abraços, carinhos
aqueles caminhos cheios de espinhos
só tem tudo que a gente joga fora
o limbo da atenção que a gente não dá

O inferno de tudo que a gente deixou passar
o paraíso das coisas debaixo do tapete
a bola de neve rolando sem parar
atropelados pela bola feita da gente

Sufocados por todas as palavras não ditas
afogados nas palavras ditas demais
perdidos entre o que se queria e o que se tinha
longos caminhos entre a desconfiança e o tanto faz

Se nos importamos, ou se não foi assim
se até ligamos, mas sem conseguir
eu sei que você ainda estava bem aqui
mas o teu cheiro já não sentia, eu percebi

Que era longe o amanhecer
sem saber onde você andava
ou se eu mesma estava
ou se queria estar

Se era doença ou fome o que eu tinha
o que me impedia mesmo de caminhar
se era fome, fazia aquela comida
e ficou o cheiro dela onde o seu não está

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