sábado, 1 de novembro de 2014

Outros escritos #1

Todos os claros serviam para a teoria, a constante luz do sol dos dias em que se viam apenas aumentava sua timidez, porém iluminando uma certa vontade crescente. Para não dizer que eram apenas sorrisos, olhares e segundos de esperança, existiam as palavras, verdades ditas na calada da noite quando ambos estavam longe e portanto nada podiam fazer, além de esperar que no dia seguinte a coragem aumentasse, ficando condizente com a vontade que já não cabia no peito, e os guiasse no caminho curtíssimo até o rosto, de poucos passos, até o rosto logo à frente, logo ao lado, dependendo de onde estivessem sentados.
Assim se seguiam os dias, entre conversas, abraços sem jeito, olhares longos, chocolates da barraca do tio Rui, visitas a biblioteca, segredos e memórias compartilhadas, ia nascendo um sentimento e não tinha ninguém pra dizer que era errado, que era de outro jeito, felizmente, ninguém sabia deles e ninguém podia dizer nada e, por isso mesmo, eles puderam seguir sem empecilhos, alimentando o sentimento tão bonito.
Depois de todas as brincadeiras, chocolates e conversas, depois de todos os jogos que levavam a verdades reveladas na madrugada, depois de todos os corações partidos e o medo da rejeição, o medo da dor, o medo do amor, havia de chegar o dia em que a vontade ia ser maior, maior que a timidez, maior que a luz do sol. O dia em que todas as confissões se traduziriam numa única ação, no lugar em que tivesse de ser, como tivesse de ser, porque não havia nada nem ninguém ditando normas, regras ou uma receita. E, sem nem saber o que estava fazendo, eles conheceriam o amor pelo simples fato de senti-lo, não haveria espera que desmerecesse o momento que seu exatamente quando tinha que se dar.
No dia que estava escrito em algum lugar do mundo, por algum dedo, numa folha que ninguém nunca leu, eles foram agentes dos próprios destinos, sem receitas, eles fizeram do jeito que era mais certo para eles. Era pra ser mais um dia apenas, mais algumas conversas, mais algumas verdades, outras poucas ansiedades e depois despedidas e abraços, mais tarde seria a hora de confessar o que cada um gostaria de ter feito. Talvez pudesse ter sido assim, mas não foi. No meio do eterno local de encontros, no meio de alguma tarde quente, com o sol no meio do céu. O chocolate, personagem de tantos momentos da curta amizade, tornou-se aliado. E, porque não poderia ser diferente, na penumbra do interior de um elevador, nenhuma luz foi necessária, a promessa de um doce, olhos fechados e a vontade pode enfim conduzi-los, frente a frente, um ao outro. Mãos tremendo, rostos colado e um beijo silencioso, rápido, que traduziu tudo que havia de ser dito. Lábios molhados, a marca do que acabara de acontecer, a timidez que antes foi empecilho, acabou por se reduzir, presente apenas no sorriso com que se olhava, se admiravam, os olhos com um certo brilhando dançante gritando, pulando e amando.
Quando a porta se abriu, as mãos ainda encostadas nada revelavam para além deles mesmos, que não sabendo onde iriam parar, sabiam exatamente onde estiveram parados e, sem saber o que ia acontecer, sabiam o que havia acontecido. No meio do mundo e sua história, apenas um beijo, mas para eles, o começo, portas abertas para um certo amor bonito, um antes virando um agora que se transformaria num depois, conforme a vontade de amar que só sabia crescer. E beijaram, e amaram, num dia em que a penumbra foi maior que qualquer luz, qualquer sol, só não maior que o
amor que estavam destinados a sentir um pelo outro.

(Imagem: Maggie Paiva)

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