Na parada de ônibus, eu esperava o 825, do lado de uma senhora que compartilhava a sombra comigo, único ponto de alívio numa avenida tomada pelo calor escaldante do sol das duas da tarde. Dona Isa, como se apresentou, trabalhava ali perto de onde eu morava, pegava o ônibus sempre naquele horário para ir pra casa, enquanto eu estava indo mais uma vez para a faculdade.
Com a demora do ônibus, começamos a conversar, trocas histórias, figurinhas, experiências de vida, tínhamos idades diferentes, morávamos em locais diferentes e fazíamos coisas diferentes. Ela, uma senhora com seus quase 60 anos, tinha uma filha, um namorada e era da Barra do Ceará. Eu, no auge dos meus 21, era dali mesmo, Cidade dos funcionários, e não, não tinha nenhum filho, só o namorado.
Ela contou que naquele dia estava fazendo um mês que havia sido assaltada naquele mesmo ponto, naquela parada, eu falei que também havia sido assaltada ali, só que há mais tempo. Passamos a conversar sobre a cidade, os riscos, o perigo de sair de casa, as pessoas e o fato de nunca sabermos quem de fato elas são.
Eu contei a minha experiência, dois caras numa moto, um deles com uma arma. Ela ficou surpresa, um mês atrás, ela também foi assaltada por dois caras numa moto, mas nenhuma arma, tanto que brigou com o assaltante, ele teve que segurar ela pelos braços para conseguir alguma coisa enquanto ela esperneava e gritava, até conseguir atingir "bem entre as pernas do desgraçado", enquanto ele a xingava e ela xingava a mãe dele.
Eu ri durante a história toda, não da situação em si, mas da forma como ela contava, rindo também da própria ousadia e porque os ladrões só levaram o celular mais velho. "Celular do ladrão, né, mas fiquei toda roxa, minha filha pensou foi besteira, até meu namorado tomou um susto", declaração onde o riso morreu, ao imaginar aquela senhora já um pouco idosa, a pele quase transparente de tão branca, ficando roxa na mão de dois assaltantes que, com uma arma na mão, não teriam hesitado em fazer coisa pior. Mas ela própria continuava rindo, cada vez mais alto, da própria desventura que certamente poderia ter acabado de outra maneira. "A gente tem que levar é na brincadeira mesmo", ela me contou.
O ônibus demorava, eu já não sabia dizer se o calor do sol aumentava ou diminuía, minha companheira de espera, tão chateada com a demora quanto eu, reclamou: "E esse ônibus que não passa hein?". "O jeito é esperara", respondi. "E nossa vida não é uma eterna espera, Maggie", perguntou, falando meu nome pela primeira vez. "A gente espera pra almoçar, espera pra jantar, espera pra dormir, aí espera pra tomar café, espera pra trabalhar, espera pra pegar o ônibus". "E espera pra voltar pra casa", arrematei. "É...", a última palavra da Dona Isa, logo antes do 825 passar, pondo ao fim toda aquela espera.
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