quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Outros escritos #4

Na parada de ônibus, eu esperava o 825, do lado de uma senhora que compartilhava a sombra comigo, único ponto de alívio numa avenida tomada pelo calor escaldante do sol das duas da tarde. Dona Isa, como se apresentou, trabalhava ali perto de onde eu morava, pegava o ônibus sempre naquele horário para ir pra casa, enquanto eu estava indo mais uma vez para a faculdade.
Com a demora do ônibus, começamos a conversar, trocas histórias, figurinhas, experiências de vida, tínhamos idades diferentes, morávamos em locais diferentes e fazíamos coisas diferentes. Ela, uma senhora com seus quase 60 anos, tinha uma filha, um namorada e era da Barra do Ceará. Eu, no auge dos meus 21, era dali mesmo, Cidade dos funcionários, e não, não tinha nenhum filho, só o namorado.
Ela contou que naquele dia estava fazendo um mês que havia sido assaltada naquele mesmo ponto, naquela parada, eu falei que também havia sido assaltada ali, só que há mais tempo. Passamos a conversar sobre a cidade, os riscos, o perigo de sair de casa, as pessoas e o fato de nunca sabermos quem de fato elas são.
Eu contei a minha experiência, dois caras numa moto, um deles com uma arma. Ela ficou surpresa, um mês atrás, ela também foi assaltada por dois caras numa moto, mas nenhuma arma, tanto que brigou com o assaltante, ele teve que segurar ela pelos braços para conseguir alguma coisa enquanto ela esperneava e gritava, até conseguir atingir "bem entre as pernas do desgraçado", enquanto ele a xingava e ela xingava a mãe dele.
Eu ri durante a história toda, não da situação em si, mas da forma como ela contava, rindo também da própria ousadia e porque os ladrões só levaram o celular mais velho. "Celular do ladrão, né, mas fiquei toda roxa, minha filha pensou foi besteira, até meu namorado tomou um susto", declaração onde o riso morreu, ao imaginar aquela senhora já um pouco idosa, a pele quase transparente de tão branca, ficando roxa na mão de dois assaltantes que, com uma arma na mão, não teriam hesitado em fazer coisa pior. Mas ela própria continuava rindo, cada vez mais alto, da própria desventura que certamente poderia ter acabado de outra maneira. "A gente tem que levar é na brincadeira mesmo", ela me contou.
O ônibus demorava, eu já não sabia dizer se o calor do sol aumentava ou diminuía, minha companheira de espera, tão chateada com a demora quanto eu, reclamou: "E esse ônibus que não passa hein?". "O jeito é esperara", respondi. "E nossa vida não é uma eterna espera, Maggie", perguntou, falando meu nome pela primeira vez. "A gente espera pra almoçar, espera pra jantar, espera pra dormir, aí espera pra tomar café, espera pra trabalhar, espera pra pegar o ônibus". "E espera pra voltar pra casa", arrematei. "É...", a última palavra da Dona Isa, logo antes do 825 passar, pondo ao fim toda aquela espera.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Dica #3

Okay, essa vai ser estranha, porque pra começo (e até pra fim) de conversa, eu ainda não li, ou vi, o que estou prestes a indicar. Bem, talvez um pouco, se você considerar sinopse de livro e trailer de filme como consumos básicos de produtos midiáticos. Coisa de jornalista.
Até por isso mesmo não vou indicar nem o livro nem o filme (já que o primeiro é baseado no segundo) e por isso mesmo também não vai ter imagem, cabe a cada um escolher qual vale à pena consumir primeiro :D
Foram vários fatores que me fizeram querer consumir e indicar o filme e o livro. Primeiro, eu vi o trailer, antes da sessão de ooooutro filme, gostei muito da história e coloquei na minha própria lista de filmes pra assistir. No fim do trailer, é que descubro que é um filme baseado no livro de uma autora que já era dona do meu coração desde "P.S. Eu te amo", sim, Cecelia Ahern. Digo que ela me ganhou com o livro (ps eu te amo) porque não gostei muito do filme, já que eles mudaram coisas que NÃO podiam ser mudadas (na minha humilde opinião) e eu também detestei o ator que fez o Daniel, deixando o personagem muito mais pastelão do que ele já era, detalhes, gosto, etc.
Mas, por ter gostado tanto do outro livro da autora e por ter ficado absolutamente com o trailer do novo filme, eu coloquei os dois "Simplesmente Acontece" (antigo "Onde terminam os arco íris) na minha lista, ou listas, dei a mim mesma o livro de aniversário, comecei a ler e estou esperando a oportunidade (e a estreia) para ir ver o filme no cinema.
No começo, eu achei a temática bem parecida com a de "Um dia" (que eu também recomendo tanto livro quanto filme, o que fica pra outro post), um casal de melhores amigos que não fica junto. Que fique bem claro que não sei o final, então nada que eu diga pode ser considerado um spoiler, embora a capa do livro (e do filme), além do próprio nome, possam ser considerados spoilers.
Andei lendo umas resenhas no skoob e talvez eu não estivesse tão errada nas minhas considerações iniciais, o que não é o que realmente importa, ao que tudo indica "Simplesmente acontece" é uma deliciosa história cheia de açúcar de um casal e de tudo que os rodeia, amigos, namoros, casos, filhos, brigas, abraços, beijos e tudo que vier. Talvez, quanto a esse, o grande diferencial seja a forma como ele é contado através de e-mails e cartas, o que mostra várias visões da história, a de cada um que está escrevendo.
No final das contas, eu sei que parece mais uma história sobre um casal que não consegue ficar junto, aí passa 400 páginas (ou 2 horas) enrolando até que numa grande reviravolta do destino, eles ficam - de fato - juntos como todos provavelmente queriam e esperavam (lembrando que eu não sei o final). Porém, para isso, eu tenho uma resposta pronta.
"Simplesmente acontece", que já é por si só um spoiler (eu acho), não se trata do que acontece no começo e no final, seu ponto alto não é o final, como o casal termina, junto ou não, como os personagens se acham. É mais sobre o que acontece entre um e outro, entre o começo e o fim, entre um personagem e o outro. é a história como um todo, você lê com afinco não para saber como termina mas porque a história te prende, te encanta, te enlaça. Acho que muitos autores estão seguindo esse estilo em que os momentos mais cotidianos da história são melhores do que o grande beijos entre os protagonistas, por exemplo, em si.
Pode ser a forma que se narra que torna as histórias mais recentes tão encantadora, apesar de todo o açúcar (ou todo o sal que tentem jogar em cima), pode ser que sejam os personagens únicos, mas não seria novidade nenhuma se alguém me dissesse apenas que é o amor, com sua fórmula, clichê, porém mágica, de te encantar e te preder de um jeito que nenhum outro sentimento é capaz de faze.

Pensamentos soltos #5

Falha na comunicação. E se um dia perdêssemos a habilidade de falar?

Se o tempo regredisse de tal forma que não teríamos mais nenhuma das formas de comunicação que viemos estabelecendo ao longo da história da humanidade, o que isso faria conosco? Com nossas relações com os outros e até com a forma com que lidamos com nós mesmos?
Será que o mundo existiria, ou duraria? O que seria mais fácil e mais difícil?
Talvez nossa convivência, nossas ações ficassem semelhantes demais àquelas do tempo das cavernas, sem pode se comunicar, quantas coisas deixariam de existir. As conversas, as mensagens, as risadas, a escrita, as invenções, os abraços, os beijos, o amor.
Sim, o amor também, pois diante da falta de demonstrações, como seria possível impedir sua morte? Diante de tudo que talvez já tenhamos estudado na escola, em história e geografia, não é difícil imaginar as cenas de uma vida sem comunicação, como a do homem primitivo, a questão é que ele já nasceu numa época em que isso não existia e nunca teve que sentir falta do que não conheceu. No entanto, nós, hoje, acostumados a toda forma de comunicar que nem percebemos que estamos fazendo, se acordássemos da noite para o dia, sem poder falar, escrever ou usar piscadas de olho para "sim" ou "não"o, sentiríamos o choque, a dificuldade e imaginar uma realidade depois disso é tão complexo quanto reinventar a comunicação, é difícil, porque seria uma realidade difícil.
Olhando para o agora, tudo que temos disponível, não percebemos o quanto a habilidade (sim, uma habilidade) de se comunicar é importante, talvez porque nunca tivemos que sentir sua falta, ousamos abrir mão desse direito a qualquer momento que nos convenha. E diante disso, quantas coisas morrem, amores, relações, conexões, pobres vítimas da ausência da percepção de uma falta que tanto causa mal.
Talvez se um dia sentíssemos realmente saudade de se comunicar, desejaríamos com tanta força que reinventaríamos e o faríamos com mais afinco. Se, por outro lado, vivêssemos na iminência de perde-la, talvez - e apenas talvez ~ cada um de nós daria mais valor, do "bom dia" ao "eu te amo", do aperto de mão ao abraço de urso, do "boa noite" ao "te vejo depois", ao "falo com você depois", mesmo sema noção do quanto o pequeno verbo contido nessa frase significa.

Mas se ela não existisse, eu também não estaria aqui digitando e, no final das contas, quanta diferença isso faria?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Foto da semana #4

A foto de hoje é da linda da Janaína Oliveira e fez parte de um ensaio que nós fizemos em Fortaleza, na praça dos Martíres ;)