sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Tudo é rima #1



















Da infância que acabou já faz um tempo
Das brincadeiras de noite nas ruas vazias
Das conversas até tarde na calçada
Sobram lembranças que eu levo pra vida

Dos momentos em que paro pra pensar
Das coisas que eu deixei pra trás há certo tempo
É quando fecho os meus olhos pra lembrar
Das lembranças, da cidade, dos momentos

As viagens ao interior do interior onde eu morava
São as melhores das lembranças que eu levo
Fins de semana que eram fugas mascaradas
Da rotina, da vida, obrigações e colégio

Até onde isso tudo me levava
Detalhes pintando os momentos de alegria
Com o sol que queimava as costas suadas
Iluminando os sonhos das crianças que riam

A estrada de terra batida no caminho
O carro de horário levantando a poeira
A menina na janela sonhando com o sertão
Em família, conversas, brincadeiras

As histórias de terror na calada da noite
Os pedaços de árvores virando brinquedos
As descidas até a plantação de mangas
Onde até formigueiro dava medo


Dá saudade lembrar desse jeito
Saber que viveu mesmo que as imagens se apaguem
Como um suco de caju em fim de tarde no sertão
Como são doces as lembranças dessas viagens


(Imagem: Maggie Paiva)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Velhos textos #1

Mentiras, verdades, lembranças que vejo
memórias e lágrimas que se cruzam enfim
dúvidas incertas da menina no espelho
medos que me fecham em mim

e eu lembro de momentos em que fui mais feliz
ou talvez não tenha sido mesmo assim
pra onde olho, o que faço, o que o coração diz
que eu estava sonhando e o sonho chegou ao fim

eu te assisto chorar se encolhendo de medo
do que a vida reserva e do futuro em segredo
eu não consigo olhar para teus olhos vermelhos
porque a criança assustada é meu reflexo no espelho

não chora menina que o dia já vai amanhecer
o sol vai secar as lágrimas que insistem em descer
deixa os demônios fugirem madrugada adentro
você vai ficar melhor, eu prometo

teu sofrimento é nosso e eu levo comigo
teu coração perturbado é meu melhor amigo
acalmo a tempestade e te faço dormir
guardo a criança que fui dentro de mim

te olhar nos olhos me dá forças pra seguir
seguir em frente e nos proteger
te orgulhar de mim, esquecer o que restou
nós somos o mesmo, eu te tenho, eu te sou

teus olhos ingênuos me encaram, vermelhos
a criança que eu era me assiste do espelho
mas deixo os demônios fugirem madrugada adentro
eu vou ficar melhor, eu prometo

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tenho lido #1

(Primeiro, eu preciso confessar duas coisas:

1-Eu ainda não terminei o livro.
2-Eu ainda não vi o filme, então não vai ficar uma coisa que se diga "nossa, que texto completo", mas vamos lá...)

Para mim, é impossível começar a falar de "12 anos de escravidão" (o livro) e não dizer "leia!" antes mesmo de falar o básico sobre ele, porque embora eu ainda não tenha chegado ao final, o livro é bem capaz de ganhar o leitor nas primeiras páginas, ou apenas pela capa, não pela beleza em si, mas por saber do que se trata a história.
É claro que eu também não vou dar nenhum spoiler, desnecessário, até porque o próprio autor conta o final nas primeiras páginas do livro, você vai ler não pra descobrir como a história dele termina, mas como ela acontece, cada detalhe, sentimento, passo que Solomon Northup deu durante a sua sina que, se não estiver muito claro, durou 12 anos.
Explicando, o livro, em suas pouco mais de 250 páginas, conta a história de um negro norte-americano que nasceu livre, filho de escravos que o ensinaram o valor da liberdade, mas também do trabalho e da dignidade presente em ambos. Solomon Northup, sobrenome "adotado", proveniente dos antigos senhores de seus pais, cresceu livre e trabalhador, constituiu família, tocava violino, sonhava em ter uma casa para si, sua mulher e suas crianças, fazendo de tudo para conseguir trabalho e dinheiro para manter a todos. Essa última característica, talvez, em parte, pode ter contribuído para sua ruína.
Em busca de trabalho, Northup encontra com dois homens que se dizem artistas de circo e, impressionados com a habilidade dele com o violino, convidam-no para viajar com eles até onde o circo se encontra, garantindo pagamento, alimentação e uma rápida volta para sua cidade, sua casa e sua família. No entanto, alguns acontecimentos melhores descritos no livro, embora turvos para o próprio Northup, fazem com que ele seja sequestrado e vendido como escravo por um comerciante que se recusa a reconhecer seu nome e sua liberdade, torturando-o a cada momento que ele cita uma das duas coisas.
É preciso explicar o que estava acontecendo nos Estados Unidos no momento. A história começa em 1841, com o país dividido em Norte e Sul, a configuração que levaria a Guerra Civil Americana (ou Guerra de Secessão) já que os dois pólos pensavam e trabalhavam de maneiras bastante diferentes. Por exemplo, num dos lados, os escravos estavam sendo libertos, realidade bem diferente do outro.
Northup, como homem livre pertencente ao lado onde isso era possível, acaba viajando para o outro, o que torna possíveis os acontecimentos que se desenrolam no decorrer da história, durante os 12 anos em que ele permaneceu como escravo até conhecer novamente a liberdade.
Muitas coisas me chamaram atenção nesse livro, até onde eu li (a metade). Primeiro, o fato de ser uma história real, imaginar tudo ali descrito acontecendo em algum ponto do tempo e espaço sempre ganha minha atenção. Outra, o relato de Northup, que não se considera escritor, é muito rico, suas descrições realmente dão asas à imaginação para "observar" todas as atrocidades e os lugares onde aconteceram. Além disso, ele consegue passar uma emoção através de suas palavras que só poderia alguém que de fato passou por tudo que ele passou. Também me chamou atenção a integridade de Northup que, mesmo angustiado com sua situação, manteve seu caráter, o máximo possível de sua dignidade, sua força para o trabalho, sua coragem e sua disposição para ajudar os outros, antes até dele mesmo. A última razão pelo qual iniciei a leitura é essencialmente pessoal, trata de um tema ao qual eu sou muito sensível que é a escravidão, as descrições e as imagens que se propagam pela imaginação permitem refletir sobre essa mancha que se expandiu pelo mundo e sentir um pouco da dor que cada escravo sentiu, o que é delicado.
É impossível saber, mas penso que estava escrito na história que se Northup teve que ser escravo por 12 anos, mesmo tendo nascido livre, é porque ele tinha que escrever esse livro e perpetuar seus relatos e todas as informações, emoções e reflexões que ele passa, enquanto quem está lendo permanece torcendo para ele, a cada minuto, a cada página, linha e lágrima.


Espero poder terminar o livro em breve e fazer um novo post sobre ele. Fico pensando que emoções ele traz no final, visto que tal final é revelado desde o início.

Para quem se interessar, ele está em promoção na Saraiva e na Livraria Cultura, ambas em Fortaleza. Agora ele é vendido com a capa do filme (que ganhou o Oscar de melhor filme no início de 2014), mas possui uma capa interna também muito bonita. Se é que eu já posso falar isso, certamente vale à pena a leitura, é quase impossível de largar e, parafraseando uma crítica que eu não lembro onde li, é um relato que deveria ser lido por todos.


(Imagem: Maggie Paiva/Blog "Desenquadradas")

Recomeço

Eu não sou poeta
sou mais um ser deprimido
sai de casa escondido
pra caminhar na linha do trem

tem dias que eu não vejo
mais sentido em nada disso
mas vou até onde eu consigo
da liberdade, eu sou refém